Como a chegada da tecnologia nas aldeias indígenas afeta o dia a dia dos índios no Brasil.

A cultura indígena é a mais tradicional de nossas terras. Com a chegada da tecnologia nas aldeias indígenas, algumas coisas foram aperfeiçoadas e outras sofreram mudanças algumas vezes avaliadas como negativas pelos índios. Para saber mais sobre o assunto, continue a leitura do nosso artigo de hoje.

Chegada da tecnologia nas aldeias indígenas: quais são os impactos?

Muitas aldeias indígenas já tiveram acesso à tecnologia através de celulares, computadores, TV, videogames entre outros aparelhos. Em alguns lugares mais distantes, não é possível o acesso à internet, mas mesmo assim, os aparelhos são utilizados para jogos, fotografias ou para produzir vídeos.

E esse é um dos aspectos que pode ser considerado positivo: com a chegada da tecnologia nas aldeias indígenas, os índios conseguem registrar mais facilmente e com mais frequência seu cotidiano. Muitas vezes, registram em imagens ou até mesmo sons os hábitos culturais de sua tribo ou a fauna do local, por exemplo. Existem registros gravados de festas, rituais tradicionais ou até mesmo tarefas do cotidiano, como cozinhar. Isso torna o acesso e registro da cultura indígena mais acessível e próxima de toda a população.

E sabemos que, quanto mais as pessoas tiverem informação, menos preconceito existe. Já diz a palavra: o pré-conceito é uma ideia criada a partir da falta de informação real. Como não sabemos exatamente como funciona ou como é, imaginamos algo a partir de nossas referências, que muitas vezes (ou quase nunca) condizem com a realidade.

Sem pré-conceito

As pessoas, no geral, ainda têm uma noção colonizadora dos índios, de que eles, por viverem na mata, não devem ter acesso às ‘modernidades’ da cidade grande, ou que eles devem se restringir à mata e à vida e costumes relacionados a ela. Mas essa é uma ideia já bastante ultrapassada. Muitos índios possuem canais no YouTube ou perfis em redes sociais com milhares de seguidores e visualizações. Esse é um aspecto bastante interessante da tecnologia nas aldeias indígenas já que, mais uma vez, aproxima o cotidiano indígena do restante da população, fazendo com que as pessoas entendam mais claramente sua cultura e seu modo de vida.

Outro aspecto interessante é que crianças, jovens e adultos têm maior acesso à informação e possibilidades que não existiam antes, como educação e cursos. Muitas aldeias são bastante afastadas de escolas, universidades ou qualquer estrutura educacional. A tecnologia e, sobretudo, a internet aproximou os índios de informações importantes para eles, que ajudam nas tarefas diárias e trazem conhecimento à sua cultura já tão rica.

A tecnologia é uma via de mão dupla nas aldeias indígenas. Elas são ricas para o conhecimento dos índios, mas também trazem informação para quem não faz parte da tribo e não conhece seus costumes e culturas. Isso aproxima povos, gera identificação e informação relevante para as gerações atuais e futuras. Assim como preservar, de ambos os lados, as culturas e costumes diferentes, sem que isso seja motivo de preconceito ou exclusão.

O lado ruim da coisa…

Porém, nem tudo são flores… há relatos de alguns índios que reclamam de certos aspectos da tecnologia nas aldeias indígenas, como, por exemplo, o fato de as crianças estarem recorrendo menos aos pais ou membros mais antigos das aldeias em busca de informação, já que hoje conseguem acessar tudo pela internet. Jaime Diakara, kumu (ou, na expressão mais conhecida, pagé), escritor e antropólogo, do povo Desane, afirma que não é mais tão comum nas crianças o hábito de perguntar ao pai quem eram seus ancestrais e o papel deles na tribo. Informações que apenas os mais antigos da tribo possuíam, hoje podem ser encontradas em outras fontes. Assim como as brincadeiras na terra ou entre as crianças, em um aspecto mais físico, foram substituídas pelos joguinhos nos celulares ou videogames. Mas essa também é uma discussão de todos os povos, não só dos indígenas. A tecnologia, assim como suas vantagens e desvantagens chegam para todos, não importa os hábitos culturais.

Fiscalização através da tecnologia nas aldeias indígenas

Uma ação muito positiva do uso de tecnologia nas aldeias indígenas é o treinamento dos índios para o uso de GPS, possibilitando que eles façam denúncias de extrativismo ou mineração irregulares e outras atividades não autorizadas com maior eficácia, que prejudicam o meio ambiente e seu próprio habitat. Com o uso de aplicativos, mapas e georreferenciamento, os índios enviam denúncias de locais extremamente remotos, através de celulares, rádio e até código morse, onde a fiscalização seria impossível, em muitos casos. Essas ações são feitas em conjunto com órgãos do governo, como a FUNAI (Fundação Nacional do Índio), Funasa (Fundação Nacional da Saúde), IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e as tribos indígenas. Essas ações e treinamentos ajudam tanto os índios, protegendo as florestas e seus recursos, tão importantes para sua sobrevivência, como o governo, já que é impossível fiscalizar um país tão grande quanto o Brasil com a devida eficiência.

Infelizmente, a vida cotidiana dos índios mudou bastante com a chegada do homem branco e a pressão do capitalismo. Não é mais possível defender a floresta com suas armas originárias. Hoje, eles enfrentam o ataque de garimpeiros, grileiros e todo tipo de pressão e violência à mão armada. O uso de novos recursos é urgente para a própria sobrevivência indígena. Porém, por outro lado, a preocupação da perda da conexão com a natureza, principalmente com as novas gerações, é algo que deixa os indígenas em estado de alerta. Os índios vivem e guardam a natureza. Têm um papel importantíssimo na preservação ambiental e na perpetuação de culturas originárias. São os poucos seres humanos que ainda mantém uma conexão real e necessária com a natureza. Sua preocupação com a perda dessa conexão é legítima, já que a maior parte da população não indígena não a possui mais. E você, sabe em qual fase da lua estamos, por exemplo? Para os indígenas, essa informação é vital.

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